Tantas ignomínias, tantos esfregões descarados de frotteurismo num único espaço, em um único contexto... o ônibus.
Imagina o número de pessoas que são obrigadas por força do destino a ocuparem o mesmo espaço, respirar o mesmo ar (o ar do ônibus é diferente de qualquer lugar conhecido), são submetidas às mesmas paradas, freadas bruscas e movimentos impróprios.
É nesse oníribus que despertamos, pensamos sobre os fatos que ocorreram antes de atravessar a catraca (símbolo das transformações e mudanças da vida ultramoderna) e elucubramos a enfrontivisação dos próximos acontecimentos. É um espaço livre para as ideias, é espaço público para os debates religiosos dos cristãos safados, as ofertas mais bizarras e criativas de um real, dos depoimentos dos usuários de drogas até o teatro mais sujo-imperfeito-improvisado-malsucedido, o Teatro das Necessidades.
Ônibus, sinônimo de eloucubração, permite toda e qualquer ideia lucubrativa (loucubrativa) sobre religião, temas polêmicos (drogas), reflexões sociológicas, etnomusicologia, com direitos a jammings de batuques e pagodes, além de oficinas de teatro ao público do coletivo.
Já foram balas que previnem da gripe suína, tuberculose, pneumonia e até AIDS, vendidas pelos baleiros mais esculhambados de Salvador; exercício vocais em cima de uma única palavra (amendoim, paçoca...). Ônibus é um palco e a quantidade de caras, vozes e nuances é incrível.
De reflexões religiosas ao frotteurismo...
Todos se pegaram um dia em reflexões existenciais; sociológicas a respeito dos mendigos, desempregados e crianças nos semáforos, todos postos às variações e mau humores da sociedade; a arte do povo e dos miseráveis que necessitam de míseros centavos; o masoquismo dos idosos desesperados e agoniados e espremidos e encoxados e ignorados pelos mais novos, “prepare-se para o futuro”; os mesmos doentes e inválidos com as mesmas doenças inválidas; mães donas dos mesmos doentes e inválidos procriam para nascer novos doentes e inválidos.
Do frotteurismo à sociologia das ruas...